Mapa da Violência no Brasil 2026: As Cidades Mais Perigosas do País
Um retrato atualizado da violência letal brasileira — com os dados mais recentes disponíveis e análise das tendências em curso para 2025 e 2026.
📋 Nota sobre os dados: O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 (19ª edição), publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em julho de 2025, é a fonte oficial mais recente disponível. Ele consolida dados de 2024 e é a referência válida para rankings em 2026. O próximo anuário (edição 2026, com dados de 2025) está previsto para o segundo semestre de 2026.
O Brasil registrou, em 2024, a menor taxa de Mortes Violentas Intencionais (MVI) desde 2012: 20,8 vítimas por 100 mil habitantes, queda de 5,4% em relação ao ano anterior. A tendência de redução é contínua desde 2020, quando o país atingiu o pico histórico recente de 42.034 homicídios dolosos.
Apesar do recuo geral, a 19ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública destaca um padrão preocupante: enquanto as mortes violentas caem em média, aumentam violência contra mulheres e crianças, desaparecimentos e crimes digitais. A equação da segurança pública brasileira está longe de ser resolvida.
Tendências em 2025: Sinal de Alerta no Nordeste
Dados parciais do Sinesp (Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública) para 2025, consolidados pelo Poder360 com base em registros até dezembro de 2025, mostram que o Nordeste segue concentrando a maioria das cidades mais violentas do país — 53 das 100 municípios com maior taxa de homicídios são nordestinos. Entre as capitais, Fortaleza ocupa a 6ª posição no ranking de capitais mais violentas.
Sinais pontuais de melhora foram observados no primeiro semestre de 2025 em cidades como Caucaia (−20,2% nas mortes violentas) e Maracanaú (−16,3%). No entanto, Maranguape apresentou novo crescimento de 11,5% na virada do ano, reforçando sua posição no topo do ranking.
| ⚠️ Atenção: Dados de 2025 ainda são parciais. O Anuário 2026, com os números fechados de 2025, será a fonte oficial. As tendências abaixo são baseadas em dados preliminares do Sinesp e de secretarias estaduais. |
Violência por Região: Um Mapa Desigual
Norte e Nordeste concentram as maiores taxas de MVI — mais que o dobro da média nacional. Sul e Sudeste ficam bem abaixo de 20,8.
Os 10 Estados Mais Violentos (2024)
O Amapá lidera com folga (45,1 por 100 mil), seguido da Bahia (40,6) e Ceará (37,5). Esses três estados respondem por 7 das 10 cidades mais violentas do ranking municipal.
As 10 Cidades Mais Violentas do Brasil (Ranking Oficial 2025)
Com base no Anuário 2025 — a pesquisa mais recente e a referência oficial válida para 2026. Considera apenas municípios com mais de 100 mil habitantes. Todas as 10 estão no Nordeste: 5 na Bahia, 3 no Ceará, 2 em Pernambuco.
Análise Detalhada: Cidade por Cidade
1. Maranguape (CE) — Líder absoluta e em aceleração
Com 108 mil habitantes a 30 km de Fortaleza, Maranguape registrou um dos maiores saltos do histórico recente: +87% na taxa de MVI entre 2022 e 2023, chegando a 74,2. Em 2024 a taxa subiu ainda mais para 79,9 — quase quatro vezes a média nacional — e no início de 2025 registrou novo aumento de 11,5%. A cidade saltou da 8ª para a 1ª posição no ranking nacional.
Motor da violência: a guerra territorial entre Comando Vermelho (CV) e Guardiões do Estado (GDE). Em Maranguape, somente 2% das MVI envolveram ação policial — toda a violência é essencialmente entre facções. O fenômeno de “migração do crime” de Fortaleza para municípios vizinhos é apontado por especialistas como fator central.
2. Jequié (BA) — Um terço dos homicídios cometidos por policiais
Com 170 mil habitantes no sudoeste baiano, Jequié lidera o ranking estadual da Bahia em letalidade violenta. Em 2024 foram 131 homicídios (−2,2% vs. 2023). O dado mais alarmante: 44 mortes decorreram de ações policiais — cerca de 1 em cada 3 registros.
A cidade é palco da disputa entre PCC e CV. A alta letalidade policial é muito superior à de cidades cearenses e pernambucanas com problemas similares, colocando Jequié no centro do debate nacional sobre a necessidade de reformas nas forças de segurança baianas. O estado da Bahia como um todo registrou 26% das mortes violentas como resultado de intervenção policial.
3. Juazeiro (BA) — A interiorização da violência
A 500 km de Salvador, com 250 mil habitantes, Juazeiro exemplifica a expansão do crime organizado para o interior. Em 2024 foram 194 mortes (+9,6%). Atuam no município o Bonde dos Malucos (BDM) e sua dissidência Honda 34 — cujo conflito é responsável pela maioria das mortes. A cidade reflete um fenômeno cada vez mais comum: a exportação de facções das capitais para cidades médias do interior.
4. Camaçari (BA) — Polo industrial, periferia vulnerável
Sede do maior polo petroquímico da América Latina e da antiga fábrica da Ford (até 2021), Camaçari (320 mil hab.) ilustra o paradoxo recorrente de força econômica convivendo com violência estrutural. Em 2024 houve redução de 12,1% nas mortes (de 272 para 239), mas a taxa de 74,8 por 100 mil segue elevada. A disputa territorial é entre as facções locais KLV (Km Linha Verde) e MK.
5. Cabo de Santo Agostinho (PE) — Uma década no ranking
A 35 km do Recife, o Cabo aparece há mais de uma década entre os municípios mais violentos do Brasil. Em 2024 foram 159 mortes (+16%). Apenas 3% das MVI envolveram ação policial — toda a violência é entre facções. A cidade é controlada historicamente pelo Comando Litoral (ex-Trem Bala), que disputa rotas do narcotráfico regional.
6. São Lourenço da Mata (PE) — O maior crescimento do ranking
Registrou o maior crescimento percentual entre as 10 cidades do ranking em 2024: +24,6%, chegando a 86 vítimas. É o município que mais rapidamente deteriorou em segurança. O governo estadual de Pernambuco anunciou criação de novos batalhões da PM, mas São Lourenço da Mata ficou de fora da lista — gerando forte reação de moradores e vereadores.
7. Simões Filho (BA) — 1 em cada 4 mortes cometida por policial
Com 120 mil habitantes na Grande Salvador, Simões Filho é dominada pelo Bonde do Maluco (BDM), nascido em 2015 no Complexo Penitenciário da Mata Escura. Em 1 a cada 4 homicídios registrados, o autor foi um policial. Junto a Jequié, o município está no centro das críticas ao modelo de policiamento baiano, onde a letalidade policial é desproporcionalmente alta em comparação a outros estados.
8. Caucaia (CE) — Três facções, uma cidade — e sinal de melhora em 2025
Município da Grande Fortaleza disputado por GDE, CV e os Neutros (“Massa”). Em 2024 os homicídios cresceram 8,9%, mas o 1º semestre de 2025 mostrou redução expressiva de 20,2% — um dos melhores sinais entre as cidades do ranking. A dinâmica é parte da “migração do crime” de Fortaleza para municípios vizinhos, mas ações de inteligência policial parecem estar tendo efeito.
9. Maracanaú (CE) — Da catástrofe à recuperação lenta
Polo industrial da Grande Fortaleza (230 mil hab.), Maracanaú chegou a 145,7 mortes por 100 mil habitantes em 2017 — o dobro da taxa atual. Em 2024 a taxa era 68,5, e no 1º semestre de 2025 houve nova redução de 16,3%, com 77 mortes contra 92 no mesmo período de 2024. A trajetória de queda é consistente, mas a taxa ainda é mais de três vezes a média nacional.
10. Feira de Santana (BA) — A encruzilhada estratégica do crime
A segunda maior cidade da Bahia, com mais de 600 mil habitantes, é ponto estratégico para o crime organizado por ser a entrada do sertão baiano e da Chapada Diamantina. O Anuário destaca que em junho de 2024 uma operação policial em São Paulo prendeu uma liderança do narcotráfico vinculada ao BDM — evidência dos vínculos entre o crime local e redes nacionais. Houve redução de 6,5% em 2024.
O Que Os Dados Revelam em 2026
A concentração de todas as 10 cidades mais violentas no Nordeste — pelo terceiro ano consecutivo — não é coincidência. O Nordeste é, paradoxalmente, a região que mais recebeu investimentos federais em segurança pública na última década. E ainda assim domina rankings que nenhuma cidade quer ocupar.
Quatro padrões estruturais se repetem:
- Migração do crime organizado de capitais para cidades vizinhas — Fortaleza, Salvador e Recife “exportam” facções para municípios menores onde a estrutura de segurança é mais frágil.
- Disputas pelo narcotráfico — a maioria das mortes está ligada à guerra entre facções pelo controle de rotas e pontos de venda. O BDM, o CV, o GDE e o PCC são os principais atores regionais.
- Alta letalidade policial, especialmente na Bahia — o estado registrou 26% das mortes violentas como resultado de intervenção policial, contra 2–3% no Ceará e em Pernambuco. Jequié e Simões Filho têm 1 em cada 3–4 homicídios cometido por agente do Estado.
- Perfil das vítimas concentrado — jovens de 18 a 24 anos, do sexo masculino, negros e moradores de periferias. A violência no Brasil não é aleatória: ela tem endereço e rosto definidos.
Violência não é destino — é escolha política
Especialistas são unânimes: reduzir a violência de forma sustentável exige políticas integradas — educação de qualidade, geração de renda, urbanização das periferias, inteligência policial sofisticada e enfrentamento ao tráfico com estratégias de longo prazo.
A queda na média nacional é encorajadora — e sinais positivos em Caucaia e Maracanaú no início de 2025 mostram que a reversão é possível. Mas enquanto Maranguape acelera e cidades como São Lourenço da Mata registram crescimentos de 24,6%, e enquanto 44 mil famílias perdem alguém por ano, a equação ainda está longe do equilíbrio.
Conhecer os dados é o primeiro passo. O segundo é agir sobre eles.
Fontes: Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 — 19ª Edição (Fórum Brasileiro de Segurança Pública, julho/2025) · Mapa da Segurança Pública 2025 (MJSP, junho/2025) · Poder360 (jan/2026) · CNN Brasil (jul/2025) · Atlas da Violência 2025 (Ipea) · movisafe-americalatina.com. Atualizado em abril/2026.










