EXPANSÃO SILENCIOSA O avanço das organizações criminosas e os Impactos na segurança empresarial Brasileira
O avanço das organizações criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV), para além das fronteiras do tráfico de drogas, representa um desafio crescente e multifacetado para a segurança pública e, crucialmente, para o setor empresarial brasileiro.
Este artigo visa analisar a complexa cadeia de eventos e relações entre as duas maiores facções do país, com um olhar aprofundado sobre sua infiltração em mercados lícitos, como o de combustíveis e de provedores de internet.
Traçaremos uma linha do tempo dos acontecimentos recentes, apresentaremos dados estatísticos alarmantes e discutiremos as implicações diretas para a segurança corporativa, a prevenção de perdas e a análise macroeconômica de mercado, fornecendo um panorama essencial para a tomada de decisão estratégica no ambiente de negócios.
DO TRÁFICO A MÁFIA: A METAMORFOSE DAS FACÇÕES
Originados nas décadas de 1990 e 1970, respectivamente, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) surgiram como facções voltadas inicialmente para o controle do tráfico de drogas e a imposição de regras próprias, tanto nas periferias urbanas quanto dentro do sistema prisional. Ao longo do tempo, essas organizações desenvolveram uma sólida base de poder territorial e simbólico, impondo sua autoridade em comunidades marcadas pela ausência do Estado e por condições socioeconômicas vulneráveis.
Nos últimos anos, no entanto, essas facções passaram por uma transformação estrutural significativa, caracterizada pela transição de um modelo criminoso tradicional para uma lógica organizacional com traços mafiosos. Isso inclui a diversificação de fontes de renda ilícita — como o domínio sobre a distribuição de internet clandestina, o mercado de combustíveis, o comércio informal, agiotagem e até a exploração de serviços de segurança e transporte. Esse processo é acompanhado por estratégias cada vez mais sofisticadas de lavagem de dinheiro, uso de empresas de fachada, aquisição de bens por meio de “laranjas” e infiltração em setores da economia formal.
A atuação dessas organizações deixou de ser exclusivamente violenta e passou a ser também financeira e estratégica. Em diversas regiões, o PCC e o CV mantêm acordos tácitos de não agressão para evitar conflitos desnecessários, dividindo áreas de influência ou explorando mercados paralelos em conjunto. Isso não elimina os confrontos — que ainda ocorrem em disputas por rotas internacionais ou regiões-chave —, mas evidencia um novo patamar de organização e racionalidade criminal.
Além disso, há uma crescente transnacionalização dessas facções, com controle de rotas logísticas internacionais, parcerias com cartéis estrangeiros e presença em países vizinhos. O modelo do PCC, por exemplo, foca em uma estrutura descentralizada, com foco empresarial, enquanto o CV mantém características mais territoriais e bélicas, o que reflete nas dinâmicas distintas de expansão e confronto.
LINHA DO TEMPO: UMA ESCALADA PREOCUPANTE
PRIMEIRO COMANDO DA CAPITAL (PCC)
O Primeiro Comando da Capital (PCC) é a maior facção criminosa do Brasil, criada em 1993 por oito presos na Casa de Custódia de Taubaté (SP), após o Massacre do Carandiru. Surgiu como resposta às condições do sistema prisional, com o lema “Paz, Justiça e Liberdade”. Com o tempo, expandiu suas ações para fora das prisões, dominando o tráfico de drogas, roubos, sequestros e, mais recentemente, o setor de combustíveis.
Hoje, o PCC conta com cerca de 40 mil membros, atua em 22 estados brasileiros e tem conexões internacionais, inclusive com a máfia italiana ‘Ndrangheta. Sua estratégia inclui a diversificação das atividades criminosas e a disputa por territórios, inclusive em áreas dominadas por rivais como o Comando Vermelho.
COMANDO VERMELHO (CV)
O Comando Vermelho (CV) é uma das maiores e mais antigas facções criminosas do Brasil, fundado em 1979 no Instituto Penal Cândido Mendes, na Ilha Grande, durante a ditadura militar. Surgiu da convivência entre presos comuns e políticos, inicialmente como Falange Vermelha, com o lema “Paz, Justiça e Liberdade”. Seus fundadores incluíam William da Silva Lima (“Professor”), José Carlos dos Reis Encina (“Escadinha”) e Rogério Lemgruber.
Nos anos 1980, o CV passou a dominar o tráfico de drogas, assaltos e o controle de favelas, chegando a influenciar 90% das comunidades do Rio nos anos 1990. Embora enfrente rivais como o TCP, ADA e milícias, mantém forte presença nacional, atuando em 21 estados e no exterior, com destaque para rotas na Bolívia, Peru, Colômbia, Europa e África.
Recentemente, expandiu sua atuação no Norte e Nordeste, disputando territórios com o PCC e explorando setores como o controle de internet clandestina (“CVNet”) e alianças com milícias em regiões da Zona Oeste do Rio.
A INFILTRAÇÃO ESTRATÉGICA NOS SETORES DE COMBUSTÍVEIS E INTERNET
Investigações recentes, como a Operação “Espectro” deflagrada pela Polícia Civil do Rio de Janeiro em abril de 2025, e relatórios de entidades como o Sindicato do Comércio Varejista de Combustíveis (Sindcomb) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), acendem um alerta vermelho sobre a atuação dessas organizações em setores vitais da economia.
PCC E O DOMÍNIO NO MERCADO DE COMBUSTÍVEIS
O Primeiro Comando da Capital tem demonstrado uma agressiva estratégia de expansão no setor de combustíveis. As atividades ilícitas abrangem desde o furto de petróleo diretamente de dutos, passando pela adulteração do produto, até a aquisição e controle de postos de gasolina. O estado do Rio de Janeiro, tradicionalmente dominado pelo CV, tornou-se um novo e preocupante foco de atuação do PCC neste segmento.
A tática visa não apenas o lucro direto, mas também a lavagem de grandes volumes de dinheiro proveniente do tráfico. Empresas do setor enfrentam uma concorrência desleal brutal, enquanto frotas corporativas correm o risco constante de abastecer com combustíveis adulterados, gerando prejuízos mecânicos e operacionais.
O impacto macroeconômico é devastador, com perdas fiscais anuais estimadas em R$ 23 bilhões apenas com fraudes e sonegação no mercado de combustíveis, conforme dados do FBSP.
COMANDO VERMELHO E O MONOPÓLIO DA INTERNET EM ÁREAS CARENTES
Paralelamente, o Comando Vermelho identificou no mercado de provedores de internet uma lucrativa fonte de renda, especialmente em comunidades onde o Estado tem presença limitada. A facção explora brechas na legislação, que dispensam a necessidade de outorga da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) para empresas com até 5 mil clientes ativos.
Criando empresas em nome de “laranjas”, o CV estabelece um monopólio de fato, muitas vezes coagindo moradores e comerciantes a utilizarem seus serviços, cuja qualidade é frequentemente questionável. Para as empresas que necessitam de conectividade nessas regiões, ou mesmo para aquelas que buscam expandir seus próprios serviços de telecomunicações, o cenário é de alto risco, envolvendo extorsão e a impossibilidade de operar legalmente.
A Brecha da Anatel e a Proliferação de Provedores de Internet Sem Outorga
Nos últimos anos, a brecha regulatória da Anatel permitiu que pequenos provedores de internet operassem com um simples cadastro, sem necessidade de outorga formal, desde que atuem em nível municipal. A norma, criada para ampliar o acesso à internet, acabou sendo explorada por grupos criminosos como o Comando Vermelho e milícias, que criaram redes ilegais ou semi-legais — como as chamadas “CVNet” ou “gatonet” — para dominar territórios e lucrar com o serviço.
A fiscalização limitada e o uso de CPFs e CNPJs de laranjas dificultam o controle dessas operações. Mesmo com ações recentes da Anatel, a falta de rastreabilidade e exigências técnicas adequadas ainda favorece a atuação criminosa. Isso reforça a urgência de uma regulamentação mais rígida e eficaz para o setor.
ACORDOS TÁCITOS E A LAVAGEM DE DINHEIRO
Apesar da histórica rivalidade e dos confrontos sangrentos em disputas por territórios do tráfico, informações de inteligência policial e declarações de autoridades, como o Secretário Nacional de Segurança Pública, Mário Sarrubbo, indicam a existência de “acordos tácitos” ou “pactos estratégicos” entre PCC e CV em relação a esses novos mercados.
No Rio de Janeiro, por exemplo, enquanto o PCC avança sobre os combustíveis, o CV manteria sua hegemonia no setor de internet, evitando conflitos diretos que poderiam prejudicar essas novas e rentáveis fontes de receita. A lavagem de dinheiro é o motor por trás dessa infiltração, com transações frequentemente realizadas em espécie para dificultar o rastreamento pelas autoridades.
O ALARME ESTATÍSTICO: NÚMEROS QUE REVELAM A DIMENSÃO DO PROBLEMA
O estudo “Follow the Products” do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), divulgado em fevereiro de 2025, traz números que dimensionam o poderio econômico dessas organizações criminosas ao se infiltrarem em mercados lícitos. Considerando apenas quatro produtos (ouro, bebidas, combustíveis e tabaco), a receita anual estimada do crime organizado a partir de 2022 alcança a cifra de R$ 146,8 bilhões.
Combustíveis e Lubrificantes: Lideram o ranking, com uma movimentação ilícita estimada em R$ 61,5 bilhões (41,8% do total). Bebidas: Seguem com R$ 56,9 bilhões (38,8%). Ouro Ilegal: Movimenta R$ 18,2 bilhões (12,4%). Tabaco e Cigarros Contrabandeados/Falsificados: Somam R$ 10,3 bilhões (7%).
Especificamente sobre o mercado ilegal de combustíveis, o estudo aponta que este movimenta cerca de 13 bilhões de litros por ano, o que representa 8,7% do mercado total nacional. As perdas fiscais decorrentes de fraudes e sonegação neste setor atingem R$ 23 bilhões anuais.
No que tange à exploração de serviços de internet pelo Comando Vermelho no Rio de Janeiro, a Delegacia de Defesa dos Serviços Delegados (DDSD) registrou 210 ocorrências em 2024, e apenas no primeiro trimestre de 2025, já contabilizava 90 casos, evidenciando a intensificação dessa prática criminosa.
IMPACTOS DIRETOS NA SEGURANÇA EMPRESARIAL E CORPORATIVA
A infiltração do PCC e CV na economia formal gera um espectro de riscos e impactos diretos para as empresas:
Prevenção de Perdas: Torna-se imperativo o reforço de auditorias internas e externas, especialmente na cadeia de suprimentos de combustíveis. A verificação da idoneidade de fornecedores e o monitoramento de fraudes em abastecimento de frotas são cruciais. Empresas podem sofrer perdas financeiras significativas devido à aquisição de produtos adulterados ou por serem forçadas a pagar por serviços controlados pelo crime.
Riscos Patrimoniais e à Integridade dos Colaboradores: Em áreas sob forte influência dessas facções, empresas e seus colaboradores estão expostos a riscos elevados de extorsão, coerção para utilização de “serviços” impostos (como internet, gás, segurança privada clandestina) e até mesmo violência física.
Riscos Reputacionais e de Compliance: A associação, mesmo que involuntária, com esquemas de lavagem de dinheiro ou com empresas controladas pelo crime organizado pode gerar danos irreparáveis à reputação de uma corporação. A ausência de uma due diligence rigorosa em relação a parceiros comerciais e fornecedores eleva exponencialmente esse risco, podendo levar a sanções legais e financeiras.
Análise Macroeconômica de Mercado e Distorções: A atuação criminosa provoca severas distorções de mercado. A concorrência desleal imposta por postos de combustíveis que vendem produto roubado ou adulterado a preços inferiores, ou por provedores de internet que não pagam impostos e operam sem custos regulatórios, inviabiliza negócios legítimos. Há também um impacto inflacionário localizado, devido ao controle de preços e à oferta de produtos de qualidade inferior. O ambiente de negócios torna-se hostil, desincentivando investimentos e a geração de empregos formais em regiões afetadas.
RESPOSTAS DO ESTADO E OS DESAFIOS PERSISTENTES
Operações policiais como a “Espectro” são respostas importantes, mas pontuais, diante da magnitude do problema. A discussão em torno de uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) para a Segurança Pública, que visa integrar o trabalho das polícias das três esferas no combate ao crime organizado, é um reconhecimento da necessidade de uma estratégia nacional mais coesa e robusta. No entanto, os desafios são imensos e incluem a necessidade de fortalecer a inteligência financeira, aprimorar os mecanismos de rastreamento de produtos e ativos, combater a corrupção que facilita a infiltração criminosa e promover uma maior cooperação entre os setores público e privado.
Polícia do Rio investiga atuação do PCC em postos de combustíveis no estado
CONCLUSÃO: VIGILÂNCIA E ESTRATÉGIA COMO IMPERATIVOS CORPORATIVOS
A expansão do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) para setores estratégicos da economia formal não é mais uma ameaça distante, mas uma realidade com impactos diretos e crescentes no ambiente de negócios brasileiro. Para o setor empresarial, a compreensão profunda dessas dinâmicas, aliada à implementação de robustas estratégias de prevenção de perdas, compliance e gestão de riscos, torna-se um imperativo para a sobrevivência e a sustentabilidade. A vigilância constante, a troca de informações com órgãos de segurança e a adoção de práticas de due diligence rigorosas são ferramentas essenciais para mitigar os riscos e proteger os ativos corporativos em face de um crime organizado cada vez mais ousado e empresarializado.
Do ponto de vista empresarial, a infiltração de facções como o PCC e o CV em setores como combustíveis, logística e serviços digitais exige uma reavaliação urgente das cadeias de suprimentos e parcerias comerciais. Empresas devem investir em tecnologias de rastreamento, auditorias frequentes e treinamentos para identificar e neutralizar tentativas de infiltração criminosa. Além disso, a colaboração público-privada é crucial, com o compartilhamento de inteligência entre corporações e autoridades para desmantelar redes ilícitas antes que comprometam mercados inteiros.
Em uma análise mais ampla, o fortalecimento do crime organizado reflete falhas estruturais do Estado, incluindo a precariedade do sistema prisional, a corrupção sistêmica e a ausência de políticas sociais eficazes. Combater a influência do PCC e CV demanda não apenas repressão policial, mas também investimentos em educação, geração de empregos e inclusão social para reduzir o recrutamento de jovens pelas facções. A sociedade como um todo, incluindo governo, empresas e cidadãos, deve reconhecer que a luta contra o crime organizado é uma responsabilidade coletiva. Somente com uma abordagem integrada, que combine prevenção, repressão e transformação social, será possível conter a expansão dessas organizações e garantir um ambiente de negócios seguro e sustentável para o futuro do Brasil.
Referências:
CNN Brasil. (2025, abril 14). Polícia do Rio investiga se PCC atua em postos de combustíveis no estado. Recuperado de: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/sudeste/rj/policia-do-rio-investiga-se-pcc-atua-em-postos-de-combustiveis-no-estado/
Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). (2025, fevereiro). Follow the Products: Rastreamento de produtos e enfrentamento ao crime organizado no Brasil. Recuperado de: https://uploads.eixos.com.br/2025/02/Estudo_Crime_Organizado_FORUM_ORFOLLOWTHE-PRODUCTS_13fev2025.pdf
Sindcomb. (2025, abril 24). No Rio, CV e PCC fazem acordo e avançam para os mercados de internet e combustível. Recuperado de: https://sindcomb.org.br/2025/04/24/no-rio-cv-e-pcc-fazem-acordo-e-avancam-para-os-mercados-de-internet-e-combustivel/
Outras reportagens e dados públicos foram consultados durante a pesquisa para complementar informações contextuais e estatísticas.









